02/11/2011

A necessidade da ausência em A mulher sem piano

Hoje, postando novamente no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: A mulher sem piano (La mujer sin piano, 2009, Javier Rebollo)


Trecho: "Com um roteiro que mescla um cotidiano naturalmente sem atrativos e situações que flertam com o absurdo e o patético, Rebollo transforma as situações em imagens com um estilo visual simples e direto"

30/10/2011

O Palhaço e a melancolia chapliniana




Qual o meu espaço no mundo? Qual a minha missão, minha razão de ser e estar nesse estranho e, por vezes, desesperançado universo? Cada um nasce não para um sentido único, mas para encontrar sua própria direção em meio a tantas outras que parecem concorrer ou divergir do caminho que escolhemos. Por vezes, nós mesmos escolhemos dar um passeio por outras trilhas para tentar nos distanciar de uma reta que parece, às vezes, não nos satisfazer mais.

Segundo longa do conhecido ator global, O Palhaço (idem, 2011, Selton Mello) trata da história de Benjamin, palhaço de circo que segue a carreira do pai, Valdemar, mas que se encontra insatisfeito com sua obrigação em “fazer rir” quando, na verdade, o que mais desejava era ter alguém com quem chorar e desabafar todas as lagrimas que vem carregando há tempos. Andando com seus bizarros colegas de picadeiro pelas cidades, termina passando por diversas situações até que resolve se distanciar da lona do pai para encontrar seu próprio abrigo no mundo dos trabalhos convencionais.

Com um enredo simples, mas entremeado com episódios bisonhos e engraçadíssimos, eles ganham maiores contornos com a tripla jornada de Mello como protagonista, diretor e co-roteirista, que lhe permite adensar a temática e a estética que optou por trabalhar no longa. A direção, se comparada com Feliz Natal e sua câmera nervosa, ganha planos compostos de maneira mais “desenhada” e estável, com travellings que transmitem certa delicadeza e fluidez ao universo circense. Relembrando em certas passagens o cinema de Wes Anderson e Zach Braff tanto nas ideias – as estranhas relações familiares e a descoberta de si mesmo num mundo atemporal e, ocasionalmente, pueril - como na forma de conduzi-las diante do espectador – como em alguns enquadramentos estáticos e na galeria imensa de personagens –, a direção de Mello se aprimora com o elenco numeroso que passeia pela tela.

Enquanto Selton esbanja simpatia e lirismo com seu confuso e divertido Benjamin, Paulo José emociona com um Valdemar esperançoso e dolorido, e a galeria de atores que compõem a trupe e os personagens toscos que encontram de cidade em cidade – que inclui Moacyr Franco, Fabiana Karla e Jorge Loredo em participações mais do que agradáveis. A edição fluida, a fotografia viva e a trilha sonora leve ajudam a compor esse painel patético e esperançoso de uma humanidade que ainda pode se reencontrar olhando para si mesma.

Com uma melancolia quase chapliniana que permeia todo o longa, gradativamente Mello se firma como um dos diretores mais sensíveis do cinema brasileiro contemporâneo, pois compartilha experiências e sensações que atravessam não somente as relações familiares, mas principalmente, o homem por trás da máscara.

Real e paralelo? – Contra o tempo




O que podemos classificar como mundo real? E quanto às imagens em nossa mente? O que separa um universo do outro? A fantasia e, mais especificamente, a ficção cientifica durante muito tempo trabalharam com esse tipo de temática que resgata temas de discussão desde a filosofia grega, como o Mito da Caverna, de Platão. Desde então, debater as relações entre corpo e mente tornou-se tarefa cada vez mais sofisticada nas artes, principalmente o cinema.

Contrao Tempo (The Source Code, 2011, Duncan Jones), apesar da tradução cretina, termina se tornando uma bela pérola em meio às tramas simplórias que inundam os multiplexes. Em meio a uma viagem de trem, um homem chamado Sean desperta do que parece ser um transe e desconhece o que seu corpo estaria fazendo naquele lugar, assim como a moça com quem divide o assento do transporte. Absorve cada detalhe do ambiente, tentando encontrar alguma relação com a ideia que possui a respeito de sua própria história. Aparentemente desmemoriado, o rapaz tenta sair do trem, mas é surpreendido por uma intensa explosão que matou a todos os passageiros do trem e o faz acordar numa escotilha com uma certeza: ele não era Sean, mas Colter Stevens, um soldado americano tido como morto na Guerra ao Iraque. Como explica a Tenente Goldwin, aquela explosão aconteceu na manhã daquele dia e sua mente está sendo “implantada” no corpo de Sean, passageiro morto no atentado, para que ele desubra a pessoa que causou a explosão que o vitimou.

Complexo? Pois é. A trama do longa não é algo típico do público-pipoca, já que exige mais atenção do que os descerebrados filmes de Michael Bay para que atinja os efeitos que almeja: dar um nó na cabeça do espectador. A princípio, a repetição de situações incomoda um pouco, mas o crescimento qualitativo das emoções envolvidas torna a experiência ainda mais gratificante. Com uma direção pesada e tensa, Jones trabalha bem com seus atores, deixando-os conduzir a trama complexa em eventos e sentimentos: Jake Gyllenhall carrega na densidade da condição de sua personagem, sem ignorar seu lado de filme de ação; Vera Farmiga torna-se a contrapartida perfeita para o desespero do protagonista, com uma tranquilidade tensa e instável que se revela mais humana do que se esperava; Jeffrey Wright, infelizmente, termina ressoando clichês de cientistas mais preocupados com a ciência do que com os seres humanos; e Michelle Monaghan encanta pela beleza e simpatia.

Com um clímax extremamente competente em transmitir e emoção da sensação da eternidade de um instante perpetuado na mente do protagonista, o diretor, entretanto, termina cedendo a um final feliz em demasia, conduzindo seus personagens para um espaço que, diante da ausência de qualquer explicação, gera ainda mais perguntas, deixando o espectador livre para construir suas próprias conclusões.

Gigantes de Aço e o abismo ao outro

Hoje é dia de Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Gigantes de Aço (Real Steel, 2011, Shawn Levy)


Trecho: "Contando com um dos clichês mais batidos da história do cinema, o roteiro e a direção do longa ganham pontos somente pelo modo como conduzem os elementos fantásticos da narrativa: a ficção científica torna-se mais próxima da realidade."

16/10/2011

Quando as metralhadoras cospem - Adultos Pueris ou Crianças ‘Adultizadas’?



“Joãozinho, vê se cresce.” “Você parece um velho, reclamando de tudo.”. Às vezes, ouvimos comentários desse tipo quando tomamos atitudes que parecem inadequadas à nossa idade. Ou seja, sempre estamos ou outras pessoas estão insatisfeitas com a idade que temos, desejando a sabedoria e a temperança dos experientes, mas também a jovialidade e frescor da juventude.

No musical Quando as metralhadoras cospem (Bugsy Malone, 1976, Alan Parker), encontramos crianças usando vestimentas, palavras e atitudes tipicamente adultas ao dar vida à seguinte história: na Nova York dos anos 20, o honesto Bugsy Malone e a adorável Tallulah protagonizam uma guerra entre duas gangues pela posse de uma arma chamada splurge - um tipo de metralhadora que arremessa chantilly. Satirizando os filmes de gângster, este divertido longa ganha leveza no jazz e blues das danças, além de um certo ar nonsense com a presença das crianças que interpretam mafiosos, dançarinas e aspirantes a artistas de uma época marcante e difícil na história estadunidense.

Alan Parker conduz com mão leve todas as sequências, deixando as crianças tomarem conta do show e exibirem seus talentos para dançar, cantar e interpretar como se estivessem em um grande musical de colégio. Apesar de se alongar em algumas sequências que terminam interrompendo a narrativa em favor dessa exibição de talentos, são poucos os pontos que enfraquecem a excelência do longa em conquistar o público. Contando com uma Jodie Foster em início de carreira que conduz com maturidade e certa dose de ousadia sua Tallulah, Parker nos oferece a oportunidade de conhecer jovens talentos de uma geração que hoje se leva mais a sério.

Com esse longa, Parker nos leva a refletir sobre quão imaturas e infantis podem ser nossas atitudes diante de uma sociedade que sempre parece nos exigir que cresçamos. Por mais que cresçamos em idade ou tamanho, sempre carregaremos dentro de nós mesmos este espírito infantil que, com a mesma disposição que erra, deveria estar mais disposta a perdoar e superar as falhas dos outros.

15/10/2011

Krámpack e a (des)(re)(anti)coberta da sexualidade



Desde nosso nascimento, aprendemos a nos inserir na sociedade de acordo com as ‘regras’ que regem as mais diversas instituições de que participamos: trabalho, escola, universidade e, principalmente, a família. Por ser o celeiro onde somos orientados a fazer escolhas, esta instituição se mostra basilar para que definamos nossa identidade, nossa profissão e nossa sexualidade. Contundo, nem sempre este tipo de preferência surge de maneira clara quanto se imagina.

Em Krámpack (2000), conhecemos a história de Dani, que, durante a viagem de seus pais, convida Nico, seu melhor amigo, para passar o verão em sua casa. Durante esse período, ambos paqueram Berta e Elena, duas garotas eu moram na cidade, conhecem Julian, um escritor que trabalha com o pai de Dani, tem conselhos com Marianne, a empregada da casa, e com Sonia, a professora particular de Dani.  Nesse entremeio, Dani conhece, ou aprende a re/desconhecer sua sexualidade ao começar a desejar Nico como mais que um amigo.

Com um roteiro simples e linear, escrito por Tomàs Aragay e Cesc Gay com base na peça homônima de Jordi Sánchez, o diretor Cesc Gay permite que o seu elenco ganhe maior destaque na narrativa, já que  sua trilha sonora agradável e juvenil, sua fotografia colorida em tons pastel e sua montagem fluida jamais sobrepujam o enredo. A dupla que protagonista o longa consegue dar conta do recado ao dar vida aos dois adolescentes em suas virtudes e contradições, criando dois personagens que conquistam o público justamente por seu descompasso, suas diferenças e, principalmente, pelos caminhos desencontrados que percorrem até reencontrar seu eixo.

Ao final do longa, compreendemos que, para Dani, mais vale manter um laço que não se rompa com as complicações de uma situação amorosa e,ainda mais, pouco importa definir a própria sexualidade em qualquer rótulo que em nada contribua para que viva de uma maneira mais satisfatória.

14/10/2011

Capitães da Areia e seus descompassos



O que entendemos por descompasso? Trata-se de ausência de compasso, de regularidade, de medida entre dois ou mais instâncias / parâmetros que andam em paralelo, exibindo suas imperfeições enquanto tentam caminhar paralelamente. A partir deste preâmbulo, começo esta resenha afirmando que Capitães de Areia (idem, 2011, Cecília Amado) comporta-se como uma obra cinematográfica descompassada entre todos os elementos que compõem a sétima arte.

Baseada no livro de Jorge Amado, a obra versa sobre um grupo de garotos de rua, liderados por Pedro Bala, que vivem nas ruas da Bahia praticando pequenos furtos e cortejando as prostitutas da cidade. A partir desse mote, temos as várias situações que permeiam a narrativa: o aparecimento de Dora e Zé Fuinha, as brigas com uma gangue rival e a prisão de um deles no reformatório.

Para sua caracterização do romance, Cecília Amado emprega uma bela paleta de cores - que torna ainda mais bela a cidade de Salvador - e uma trilha sonora eclética e agradável - que, na verdade, funciona mais fora da tela do que dentro dela - para construir seu longa, mas parece se apoiar exclusivamente nestas ferramentas para trazer um pouco de vida aos personagens na tela. O elenco, formado por não-atores, até tenta se esforçar, mas não consegue, de modo algum, dar vida para os personagens, oferecendo cenas e mais cenas constrangedoras onde as crianças parecem que não sabem o que estão dizendo com aquelas frases. Se, por um lado, posso louvar seu esforço em oferecer um longa que não seja estrelado por atores globais ou com a “limpeza estética” do padrão Globo de qualidade, percebo que não houve diligência em trabalhar as atuações dos garotos e, se houve, ele não foi suficiente para conduzir o espectador pela história que já encantou tantas gerações na literatura brasileira.

Mesmo que não seja um filme que faça vergonha ao cinema nacional, neste descompasso advindo da inexperiência, a diretora termina por alavancar seu esforço no design visual e sonoro da produção, mas termina ignorando o poder que os atores possuem de nos fazer esquecer todos estes elementos coadjuvantes na realização fílmica quando assistimos a uma que nos toca profundamente.

ET - Vinho Novo em Odres Velhos

Hoje, novamente no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: ET - O Extraterrestre (ET - The Extraterrestrial, 1982, Steven Spielberg)


Trecho: "Aquele encontro entre dois seres que se sentem diminuídos diante de um mundo adulto e sisudo sempre se renova por que parece sempre se fortalecer quando o vemos novamente"

13/10/2011

Sorry About Colonialism - Gran Torino

Hoje é dia de Cine Lupinha também.

Filme de Hoje: Gran Torino (idem, 2009, Clint Eastwood)


Trecho: "Eastwood ousa muito pouco ao realizar um drama à moda antiga que tenta se retratar de uma culpa estadunidense diante das desgraças infringidas sobre outros povos, como manda os ‘ditames’ do Sorry About Colonialism"

Confiar e a Pedagogia Cultural



A Educação passou por diversos estágios e estudos ao longo de seu desenvolvimento teórico e prático, desde as experiências do condicionamento “estímulo-resposta” de Skinner, passando pelo socioconstrutivismo de Piaget ou Vygotsky, chegando à educação através das novas tecnologias de informação e comunicação.
            
Dentro desta última vertente, podemos encontra um ramo recente de estudos que mescla comunicação e educação, mas também os vieses tradicionalistas e progressistas de “ensinar e aprender”, chamado Pedagogia Cultural. Este campo de estudos pesquisa a respeito das possibilidades educativas das mídias de massa – leia-se televisão, rádio, propaganda, cinema etc. -, concebendo-as como veiculadoras de ideologias capazes de influenciar fortemente comportamentos, sentimentos e opiniões de seus usuários. Mas que relações podemos estabelecer entre este campo de estudos e o filme a ser resenhado? É simples.
            
Confiar (Trust, 2011, David Schwimmer) versa sobre Annie, uma adolescente de 14 anos e de familiar nuclear tradicional, que mantém contato na internet com um jovem de 16 anos, Charlie, conversando sobre as alegrias e frustrações que enfrenta em sua jornada familiar e escolar diariamente. Com o tempo, o rapaz começa a revelar que mentiu sobre sua idade – possui mais de 30, na realidade –, mostrando-se um predador sexual online depois que ambos marcam um encontro ao vivo. A partir deste fato, descortinam-se as misérias de um pai em busca de vingança e uma mãe que se culpa diante do esfacelamento de sua perfeita família.
            
Revelar estes detalhes do enredo não se mostra um spoiler muito disparatado, já que a construção previsível e a direção quase didática de Schwimmer não permitem vôos mais distantes do que a mensagem que desde o início se explicita no longa. De forma semelhante a A Vida de David Gale (2003), em que Alan Parker se valia do enredo para defender um posicionamento anti-pena de morte, Schwimmer parece se utilizar de um roteiro, escrito por Andy Bellin e Robert Festinger, que parece parte de uma campanha contra pedofilia na internet, algo como as novelas da Globo têm feito com maior freqüências nos últimos anos. O trio de protagonistas – Clive Owen, Catherine Keener e Liana Liberato – possui talento para tentar driblar estas armadilhas, mas parece tudo tão esquemático que se torna um trabalho hercúleo tentar oferecer um retrato menos óbvio destas personagens deste filme-denúncia.
            
Com um simplismo didático que beira o maniqueísmo deslavado, este filme não consegue dar conta de todas as contradições que o seu tema pode proporcionar, funcionando, de fato, como um recurso para “ensinar” comportamentos para seus espectadores, principalmente, as adolescentes expostas diariamente aos “males” das redes sociais. Não procuro aqui desmerecer a educação ou seus pressupostos, mas discordo explicitamente do fato de se empregar suas estratégias de maneira fragilizada, procurando "isentar" os espectadores da possibilidade de pensar por si mesmos sobre a temática desenvolvida no longa ao oferecer um discurso "pensado e mastigado" para que eles possam simplesmente digerir e reproduzir ad infinitum.

10/10/2011

Larry Crowne e o ser óbvio

Hoje é dia de Cine Lupinha.



Trecho: "Um dos maiores problemas do longa reside no roteiro frouxo e sem criatividade de Tom Hanks e Nia Vardalos, que, surpreendentemente, entregam os diálogos e situações mais óbvias que poderiam acontecer em um filme"

Apimentando a Comédia Romântica - Amizade Colorida



Todo ano temos nossa cota de comédias românticas para as moçoilas que querem se apaixonar pela enésima vez no cinema, desde Aconteceu Naquela Noite, passando por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, até chegar em 500 Dias com Ela. Por mais que os clichês sempre rondem este gênero, às vezes surge um filme que utiliza com tanta maestria os elementos clássicos deste filmes geralmente açucarados, raramente desesperançados.

Em Amizade Colorida (Friends With Benefits, 2011, Will Gluck), Dylan e Jamie rompem com seus respectivos namorados e passam a evitar relacionamentos até que se conhecem por uma oportunidade de trabalho: Jamie é uma caçadora de talentos que, a serviço da revista GQ, recruta Dylan para fazer parte do expediente do periódico como diretor de arte. Quando a amizade entre ambos cresce, surge, então, a proposta indecente: que tal dar um passo a mais no relacionamento e virar fuck buddies, ou seja, sexo sem nenhum compromisso amoroso?

Claro que ambos aceitam a empreitada e não precisa ser vidente para saber como se desenrolará a trama nem seu desfecho, mas o que surpreende e conquista o espectador são os divertidos e rápidos diálogos criados pela trinca Keith Merryman, David A. Newman e Will Gluck. Oriundos da televisão, os roteiristas oferecem ao roteiro uma velocidade incomum para as comédias românticas, além de uma quantidade grande de situações e piadas que surgem da boca dos protagonistas. Gluck, como diretor, consegue focar na química entre os dois protagonistas – Mila Kunis e Justin Timberlake -, trazendo alguns coadjuvantes de luxo – Patricia Clarkson, Woody Harrelson, Jenna Elfman e Richard Jenkins - que, se não fazem muita diferença no enredo, pouco atrapalham seu desenvolver.

Mesmo que não seja uma revolução alleniana ou kaufmaniana no gênero, é inegável o prazer de encontrar vida inteligente por trás de um gênero já desgastado pelas Roberts, Ryans, Stiles e Heigls da vida.

Premonição 5 e as Narrativas Seriadas




As narrativas seriadas fazem sucesso desde o início dos folhetins e cinejornais que, alimentando as expectativas do público com dramaticidade e tensão, procuravam mantê-lo imerso em uma narrativa que apresentava elementos quase sempre reconhecíveis na história contada. Como já foi dito na resenha de Os Smurfs(The Smurfs, 2011, Raja Gosnell), vivemos em uma Cultura do Remix, ou seja, em que estamos procurando sempre aspectos familiares em todos os produtos que consumimos.

Em Premonição 5 (Final Destination 5, 2011, Steve Quale), encontramos exatamente a mesma história em cada um dos filmes, diferindo somente os protagonistas e os espaços onde a ação se desenrola: um(a) jovem viaja para algum lugar com um grupo de pessoas, tem uma visão premonitória em que todos morrem e traz um grupo de pessoas junto com ele. Estas pessoas, depois de terem ‘enganado a Morte’, começam a ser mortas uma a uma das maneiras mais absurdas através de estranhas coincidências. Se, no primeiro filme, a novidade fez seu sucesso, a partir do segundo, a fórmula já havia estabelecido e só fez descer ladeira abaixo. Neste quinto, um elemento interessante oferece um renovo para a desgatada narrativa: o humor.

O roteiro de Eric Heisserer, despontando no ramo do terror, traz um certo humor negro em alguns momentos, pois seus personagens parecem se divertir com a situação em que se encontram e não se podam em nos ‘torturar’ com a tensão de nossa expectativa em saber como vai acontecer a morte de cada um dos personagens. E quanto a Steve Quale, pupilo de James Cameron, não se intimidou de seguir os passos do mestre e tornou o filme uma experiência divertida, ainda que descartável. Entendeu que, para gerar identificação com as personagens, não precisava mostrar sempre eles sofrendo com sua condição, mas o ridículo também teria seu espaço. Quanto ao elenco, todos eles conseguem dar conta do recado, criando personagens que, se não são inesquecíveis, conseguem marcar pelo tempo do filme. Mas os elementos que chamam realmente a atenção são as cenas de ação e suspense – como a destruição da ponte em obras e as primeiras mortes, assim como a reviravolta final.

Premonição 5 funciona por ter consciência de não precisar se levar a sério e por se fazer sempre reconhecível pelos elementos que o consagraram, como as várias narrativas seriadas com que nos deparamos ao longo de nossa jornada audiovisual, repetindo o mesmo discurso: ninguém MESMO engana a Morte. 

02/10/2011

O humor do/com/para o Outro - Alô, Alô Terezinha



O que é ser engraçado? De onde vem a sensação o que me conduz ao riso? Por que sinto a necessidade de rir de determinadas pessoas ou situações? De onde vem meu senso de humor? Onde preciso começar e terminar meus momentos de seriedade e irreverência? Ao transferir esses questionamentos para a forma como observamos o outro, pensamos em uma questão essencial para embarcar em uma sessão do longa a ser resenhado: o que acho engraçado no outro?

Alô, Alô Terezinha (idem, 2008, Nelson Honieff) conduz o espectador pelos diversos personagens que passaram pelos programas Discoteca / Buzina / Cassino do Chacrinha: as sensuais e alegres chacretes, os elogiados ou ‘buzinados’ caloruos, além dos cantores que ascenderam graças ao apelo popular e carnavalesco do comunicador que fez história na televisão brasileira. Ou seja, são pessoas famosas como Rita Cadillac, Biafra, Beth Carvalho e Alcione, ex-famosos como Loira Sinistra e Índia Poti, mas também os anônimos Manoel de Jesus e Abacaxi oferecendo depoimentos sensíveis e, às vezes, esculachados não somente sobre Chacrinha, mas também sobre as situações que viveram durante o tempo em que participaram de seu programa e como vivem nos dias de hoje.

Desde as cenas iniciais, percebemos que Hoineff constrói um documentário pouco convencional, ao expor seus personagens ao ridículo constantemente, explorando seus vexames e contradições diante das câmeras, tornando-a praticamente sua melhor testemunha. Em sua montagem mordaz e cruel, ele utiliza cenas que deram errado – como uma Elba Ramalho que esquece a letra da música que cantava ou um Biafra atingido por uma asa delta -, personagens em situações constrangedoras – como o ex-calouro Abacaxi cantando ensandecido no meio da rua ou uma ex-chacrete nua posando em um chafariz – e depoimentos contraditórios – como as diversas falas sobre os affairs que o comunicador mantinha com as dançarinas ou, principalmente, seu “Rosebud” particular “Quem é Terezinha?” – para desconstruir com todas as bases ‘éticas’ dos documentários convencionais.

Ao fazê-lo, Hoineff utiliza-se de um humor escrachado e despretendido que atende os pressupostos que regiam o próprio estilo de Chacrinha: o caos, o imprevisível, a inversão de expectativas. Nessa perspectiva, ele trata a vida como um grande programa de auditório carnavalesco, ou seja, uma grande festa onde vale somente se divertir com o grotesco, o excêntrico que o Outro representa. Se Hoineff foi antiético, preconceituoso e desrespeitoso, digo que ‘sim, um pouco’, entretanto, estaria mentindo se lhes dissesse que ele não me fez rir com as incoerências e pateticidades de suas personagens. Assim somos nós: rimos daquilo que reconhecemos tão ridículo em nós mesmos.

Detroit Rock City e a idolatria nossa de cada dia



O ser humano, em suas sensações de inferioridade, cria ou adora mitos que o conduzam a algum estado de êxtase superior ao cotidiano banal e prosaico com que precisa lidar. Se, na Antiguidade e Idade Média, emergiam os diversos deuses da Mesopotâmia e Egito, passando pelo Deus do cristianismo, pelo Alá do Islamismo, chegamos, a partir da Idade Moderna, ao homem que enfatiza o olhar para si mesmo, para o “deus” dentro de si mesmo, em sua racionalidade. A famigerada Pós-Modernidade, entretanto, começa a propagar a descrença em possíveis valores absolutos, como Razão, Fé ou qualquer coisa do gênero. Quem são, portanto, os novos mitos que adoramos? Os pop-rock-disco-reggae...stars, as celebridades instantâneas, e, em tempos de Youtube, Facebook e similares, A VIDA ALHEIA.
                
A partir deste preâmbulo, não fica muito difícil perceber o subtexto presente em Detroit Rock City (idem, Adam Rifkin, 1999), uma comédia absurda e divertidíssima que versa sobre quatro jovens no final de sua adolescência que, em sua veneração inabalável pelo grupo KISS, parte para Detroit para assistir aquele que seria o show de suas vidas. Os quatro jovens, em suas personalidades distintas, se complementam e se ajudam nas encrencas em que se metem ao longo da jornada: enquanto Jam chega mais perto de ser nosso protagonista ao ter seu sofrimento em não conseguir enfrentar sua mãe católica ortodoxa e fumante compulsiva mais destrinchado, os outros se dividem entre o desprendido e revoltado Hawk, o lerdo Trip e o nice-guy Lex. Cada um, a seu modo, procura encarar os preconceitos com aqueles que não entendem seus sentimentos em relação ao grupo de roqueiros conhecidos como demônios, bichas, baderneiros, dentre outras nomenclaturas pouco elogiosas.

Dentre as inúmeras personagens e situações arquitetadas pelo roteirista Carl V. Dupré – conhecido por filmes B de terror, experiência utilizada em determinada sequências do longa -, Rifkin usa sua versatilidade como ator, escritor e produtor para dirigir um longa com uma velocidade e uma qualidade pop bem MTV. Ou seja, a direção atualiza as conquistas da geração do final dos 70 para um novo público ao trazer numa linguagem juvenil e dinâmica ícones da época como Burt Reynolds, As Panteras, MAD Magazine, Star Wars e outros que fizeram a cabeça de seus pais. A linguagem de desenho animado nonsense faz a festa com um maniqueísmo alucinado e, às vezes, expressionista proporcionam o ponto de vista dos jovens sobre suas próprias descobertas e sensações do que significava ‘ser jovem nos anos 70’.

Com personagens cativantes e divertidos envoltos em uma trama cheia de peripécias e absurdos, Detroit rock City é uma boa pedida para um sábado à noite regado a muito rock setentista para reviver uma época. Se o homem um dia foi chamado de servo, fiel, adorador de seus deuses, hoje, ele encara uma nova nomenclatura diante de seus deuses: fã.

30/09/2011

Premonição 2 e os dejavus das franquias

Hoje, postando a pedido do Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Premonição 2 (Final Destination 2, 2003, David R. Ellis)


Trecho: "Bastou dar um Ctrl+L no roteiro do primeiro filme e substituir o nome dos personagens e temos uma receita para fazer um filme onde só importa as mortes criativas e a espetacular explosão que inicia o filme."

10/09/2011

A tragédia da consciência: Planeta dos Macacos – A Origem



“Minha natureza simiesca passou a afastar-se de mim a olhos vistos, tão depressa que meu primeiro treinador é que quase se transformou num macaco” (Franz Kafka)

Em seu famoso conto Comunicação a uma academia, Franz Kafka utiliza-se da história de um macaco que relata aos estudiosos presentes em sua palestra o processo de hominização que terminou atravessando desde que foi capturado pelo seres humanos. Com certo tom de melancolia, o macaco nos faz perceber quão nociva pode ser a consciência a respeito de nossa condição humana predadora e desnudante.

No longa O Planeta dos Macacos – A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011, Rupert Wyatt), vemos um pouco dessa discussão da relação homem-primata com o seguinte enredo: Will Rodman procura financiamento para sua pesquisa da cura do Mal de Alzheimer, que pode ser viabilizada através de um remédio testado em chimpanzés. Estes passam a desenvolver uma inteligência fora do convencional depois que passam por estes testes com protótipos do medicamento, sendo um deles César, chimpanzé adotado por Will depois da morte da mãe do símio no laboratório. Com o tempo, o primata começa a tomar consciência de sua condição e a se inconformar com o tratamento que os humanos infringem sobre ele e os outros macacos, levando-o à revolução.

Com um roteiro que destrincha sem pressa a ascensão de César, Wyatt oferece espaço para destacar o trabalho de Andy Serkis como o símio, enfatizando a tragédia de se ter a consciência das misérias que o cercam. Enquanto o excelente trabalho de Serkis rouba a cena, James Franco equilibra a dose com a concepção de um cientista obstinado pelo seu trabalho, mas que o realiza pela paixão de ver a solução de um problema próximo a si – no caso, a doença degenerativa que acomete seu pai, interpretado por um John Lithgow correto. Além deles, observa-se uma Freida Pinto ser subutilizada como par romântico e “voz da consciência” de Will em certos momentos e David Oyelowo relegado ao estereótipo do chefe interessado somente no dinheiro da empresa, um dos clichês mais batidos da história. 

Entretanto, ao observar os elementos técnicos usados por Wyatt no longa, ressalta-se os efeitos especiais que transformaram os movimentos de Serkis no símio e uma montagem fluida que investe na identificação do público com o protagonista e, em sua parte final, nos cortes abruptos típicos do gênero de ação. Patrick Doyle compõe uma trilha sonora adequada, mas não memorável e Andrew Lesnie investe em uma fotografia que realça os tons frios e acinzentados típicos da ficção científica, deixando as cores para os momentos mais emocionais do longa. Em suma, o longa de Wyatt oferece novo fôlego para a franquia dos macacos que dominam a Terra, pois investe no elemento fundamental de qualquer história: seus personagens.

Focando na inevitabilidade das consequências que este “abrir de olhos” pode proporcionar, Wyatt aposta na velha fórmula do “ciência – consciência = perigo” para oferecer um pouco mais - mas não muito - do que entretenimento escapista, mas uma tentativa de trazer certa reflexão sobre as virtudes e os infortúnios do conhecimento.

Os Smurfs e a Cultura do Remix




Dentro da chamada Cultura do Remix, percebe-se que a maioria dos produtos audiovisuais concebidos para cinema são baseados em materiais criados originalmente para outras mídias – vide Piratas do Caribe, Nine ou os recentes Thor e Lanterna Verde, dentre outros. Como fruto dessa cultura, vemos o surgimento do longa do desenho animado que veio dos quadrinhos dos anos 50 Os Smurfs, que fez bastante sucesso no Brasil na década de 80, que, neste ano, se transformou em filme.

Nos primeiros minutos de Os Smurfs (The Smurfs, 2011, Raja Gosnell), percebe-se o quanto os longas criados para o público infantil evoluíram nas últimas décadas, visto que a sofisticação e a criatividade presente em filmes como Os Incríveis, Wall-E, A Viagem de Chihiro,  Shrek e outros simplesmente desaparece com o enredo mais do que ultrapassado deste longa meio preguiçoso e antiquado. A trama reside no seguinte: os Smurfs, ao fugir de mais uma investida de Gargamel – interpretado por um Hank Azaria querendo pagar as contas – e Azrael, terminam por parar na cidade grande – no caso, a óbvia Nova York -, onde passam poucas e boas até que consigam voltar para casa.

O clima despreocupado e simplório toma conta de todo o longa, desde o roteiro às interpretações, salvando-se somente a técnica de animação, que mostra a que veio, ao adequar os pequenos seres ao universo dos humanos com destreza. Aos adultos, resta somente perceber algumas brincadeiras visuais com o Blue Man Group, Blu-Ray Disc ou Bluetooth, o que não é grande coisa para quem cresceu com esses seres azuis e esperava bem mais do filme.

Professora Sem Classe e o Ser/Estar Incorreto



Durante nossa infância, procuramos modelos em que nos espelhar a fim de sermos adultos saudáveis e exemplares uns para os outros. Se, durante muito tempo, nossa sociedade relegou à religião a concepção de mitos que funcionariam como exemplos de dedicação, subserviência e amabilidade, como Jesus Cristo, Buda ou Maomé, a contemporaneidade transfere esse status de ‘ícones’ para pessoas ditas ‘públicas’: artistas, políticos e, em menor escala, os educadores – se considerarmos a conservadora sociedade norte-americana -, o que nos conduz ao longa a ser analisado.

Professora Sem Classe (Bad Teacher, 2011, Jake Kasdan) versa sobre Elizabeth Halsey, uma professora de ensino fundamental que, numa das primeiras cenas do longa, pede demissão para ser sustentada pelo namorado rico, com quem está prestes a se casar. Mas, tempos depois, uma travessura do destino tira-lhe a oportunidade de tomar proveito das riquezas de seu fiancée. Ela termina, então, precisando voltar a lecionar para conseguir o dinheiro necessário para fazer o implante de silicone que lhe proporcionará seu próximo marido rico. Durante sue empreitada, passa os dias embriagada, fazendo seus alunos assistirem a filmes ao invés de dar aula, dá em cima de Scott, o bondoso professor de família rica, e infernizando a vida de sua serelepe rival Amy.

Trabalhando com um amor menos inocente do que se esperaria de um filme estrelado Cameron Diaz, Kasdan coloca a sala de aula em segundo plano para desenvolver a personalidade de sua protagonista independente do espaço onde esteja. Dessa forma, torna-a mais viva para o espectador, ainda que sua previsível redenção surja de maneira óbvia e apressada, mas nunca melodramática. Investindo num elenco descolado, Diaz se diverte com os palavrões e o cinismo de sua Elizabeth, enquanto que Jason Segel compõe o professor que se engraça por ela, mas que não a endeusa e Justin Timberlake desaparece um pouco com sua embalagem de cantor pop para tentar compor a timidez e a excentricidade de seu Scott. Com um discurso semelhante ao imensamente superior Papai Noel às Avessas, este longa não passa de um passatempo mais sacana do que as comédias açucaradas convencionais, servindo talvez como uma resposta às comédias ‘masculinas’- vide Se Beber, Não Case - que tem surgido nos últimos anos.

07/09/2011

Pacific - Sorria, você está se filmando.

Postando no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Pacific (idem, 2011, Marcelo Pedroso)



Trecho: "Nesse reality show concebido e registrado por nós mesmos, retornamos ao cinema dos Lumière ao encontrar diversas narrativas conduzidas por personagens anônimos e, por vezes, nada memoráveis, tornando esta experiência quase um dejá vu de nossa própria existência."



Melancolia - Pós-Trans-Oni-Anti-Ciência?

Postando hoje no Cine Lupinha.


Filme de Hoje: Melancolia (Melancholia, 2011, Lars Von Trier)



Trecho: "Rico em simbolismos, Von Trier incomoda e extasia seu público ao fazê-lo experienciar um Apocalipse ainda mais tenebroso do que aquele revelado nas profecias do apóstolo: dentro de nós mesmos, ocultamos um intenso esvaziamento que será suprido somente quando retornarmos para dentro da terra que nos expeliu para uma existência errante e distópica"




30/07/2011

Jogada de Risco – Prefácio de um Cineasta

Hoje, postei no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Jogada de Risco (Hard Eight / Sydney, 1996, Paul Thomas Anderson)




Trecho: "Ao analisar seu primeiro longa-metragem, percebe-se claramente alguns dos elementos que o consagraram: as elegantes e dinâmicas movimentações de câmera e a construção ou dissolução de relacionamentos familiares - geralmente, paternais - de maneira insuspeita"


Do Feminino e Masculino - Ricky



Desde as primícias da Humanidade, a composição familiar centra-se na figura feminina como detentora da “organização” do universo do lar, relegando-se ao homem o papel de provedor material por meio do trabalho – na caça, na agricultura ou na empresa. A mulher, então, começa a desenvolver um perfil de cuidadora de todos os membros da família, dedicando, muitas vezes, sua vida mais para o bem estar dos outros do que de si mesma.

Em Ricky (idem, 2009, François Ozon), o diretor opta por mostrar a constituição de uma família contemporânea “convencional”: mãe solteira, Katie, criando uma filha pequena, Lisa, que, ao se relacionar com um colega de fábrica, Paco, termina por ficar grávida e trazendo o novo namorado para morar na sua casa, o que desestabiliza as noções de harmonia familiar da primogênita. Com roteiro do próprio Ozon, o longa mescla realidade e fantasia com o nascimento do pequeno Ricky, que passa a desenvolver características diferentes das outras crianças: um par de asas. Por motivos que o diretor jamais esclarece, a mãe começa a perceber pequenos hematomas nas costas do menino, que, com seu crescimento, transformam-se em asas. A mãe, então, passa a escondê-lo dos vizinhos e dos médicos, até que uma inesperada exibição no supermercado chama atenção da cidade e da mídia, levando a moça a se enclausurar em seu próprio apartamento.

Optando pela sutileza, Ozon enquadra belamente seus atores -principalmente o ator mirim - com uma fotografia cotidiana e que alterna entre o colorido e o quase desbotado para oferecer o aspecto de realidade / fantasia que almeja imprimir. Sua trilha sonora, com suas doses cômicas, fantásticas e dramáticas, e montagem, que ora suprime ou ora dilata a sensação de passagem de tempo, oferecem ao longa ares que distinguem Ozon de outros cineastas europeus, como se mesclasse o painel real e doloroso dos irmãos Dardenne com a fantasia banal de Jean-Pierre Jeunet.

Por mais que invista em uma abertura deslocada do contexto da protagonista - mostra Katie, depois de Ricky estar crescido, indo em uma agência de adoção para entregar o menino para algum casal que consiga criá-lo, o que destoa de seu comportamento ao longo do filme -, o diretor suplanta essa e outras pequenas falhas com uma despretensão que conquista o espectador pela leveza com que é conduzida. Ao final do longa, resta ao público emocionar-se com a trajetória dessa mãe que, pela bem tecida metáfora empreendida pelo autor, sente a necessidade de deixar seu filho fluir pelo seu próprio curso distante dos seus cuidados, e dessa filha, que também abre espaço no seu coração para um padrasto que sempre se interessou em agradá-la, formando um núcleo familiar atípico, mas harmonioso à sua própria maneira.

Sem Passado e Sem Destino



Cotidiano. Rotina. Adestramento. Palavras que geralmente usamos para representar o dia-a-dia de casa, trabalho, estudo em que nos preparamos para organizar uma vida adulta saudável e desejável. Ignorar a pretensa importância de se estabelecer como um homem / mulher segundo estes preceitos torna-se, então, objetivo de todos aqueles que caminham na contravenção.

Em Sem Destino (Easy Rider, 1969, Dennis Hopper), Wyatt e Billy tornam emblemas desta contracultura ao protagoniza uma viagem pelos Estados Unidos no exercício de um estilo de vida alternativo aos ideais que tantos como eles prometeram anteriormente: uma existência fluida sobre as rodas de uma motocicleta desconectada das raízes que um dia cultivaram na família ou no trabalho. No meio de sua jornada ao encontro de si mesmos e de sua própria noção de espaço, atravessam desfiles, prisões, festas regadas a marijuana e os olhares preconceituosos e violentos dos interioranos conservadores.

Para alimentar seu discurso, Hopper emprega uma trilha sonora agressiva e pontual que conota sua personalidade intempestiva, acompanhada de uma edição que, por meio de cortes que oram usam, ora ignoram o naturalismo griffithiano, prenuncia uma atmosfera videoclíptica e propõe ao espectador novos olhares sobre aquilo que está vendo. Ou seja, Hopper não faz somente um filme sobre outro modo de vida, ele se declara como um novo modo de fazer filmes, que influenciou grandemente os artistas que o sucederam.

Crumb – o Homem como criador e criação


Hoje, postei no Cine Lupinha.


Trecho: "Zwigoff tece uma obra que versa sobre pessoas marginalizadas à sua própria claustrofobia, desvelando um retrato mais feio e sincero de uma sociedade regada pelo ideal de felicidade desgastado que almeja sempre perpetuar."

28/07/2011

Meia Noite em Paris – Ode à Arte e ao Tempo



Ao construir obras de arte, o ser humano procura de alguma forma relacionar-se com o tempo e o contexto que vivencia. Criando símbolos e mitos que comunicam estados, pensamentos e qualidades de um chamado “mundo interior”, os artistas podem, por conta dessa dedicação ao criar, distanciar-se, por vezes, do ordinário, do comum.

O tempo se dilata e a beleza das ruas parisienses se agiganta com a bela abertura de Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011, Woody Allen), em que o diretor destila suas neuroses carregadas de imaginação na pele de Gil Pender, um roteirista hollywoodiano que, insatisfeito com sua carreira, reescreve constantemente um romance que esconde a sete chaves das críticas alheias. Sua vida começa a mudar quando, em viagem com sua irritante noiva à Cidade Luz, resolve caminhar pelas vias parisienses e entrar em um carro antigo que o conduz a um mundo nostálgico, em que grandes artistas – como F. S. Fitzgerald, Ernst Hemingway, Picasso, Dali e Cole Porter – festejam e dialogam ad infinitum sobre o fazer artístico que Pender tanto aprecia.

Decepcionado com os “sub-artistas” do mundo contemporâneo, Pender anseia ardentemente habitar a Paris dos anos 20, que estima pelo intenso fervilhar criativo que proporcionou no encontro de tantas mentes inventivas. Nesse admirável mundo antigo, conhece a bela e sensível Adriana, que, surpreendentemente, aprecia o passado de glórias da Belle Époque de 1900 em detrimento do tempo que vivencia. Aludindo à A Rosa Púrpura do Cairo, a metalinguagem de Allen torna prosaicos os elementos fantásticos de um roteiro despretensioso que reflete e sente o prazer da Arte, mesclando realidade e fantasia em uma sofisticada jornada do homem rumo ao seu próprio tempo. Em seu elenco, Allen aprofunda as personas representadas por Owen Wilson e Marion Cotillard através de um improvável romance entre seres de temporalidades distintas, relegando, porém, seus coadjuvantes a estereótipos fúteis e pedantes em uma narrativa de segundo plano que, pelas presenças magnéticas de Rachel McAdams, Michael Sheen e Kathy Bates, jamais perde o charme. Nesse ourobouros de nostalgia, um universo alleniano se constrói através de belos enquadramentos e de uma fotografia que pinta um cotidiano luxuoso e uma trilha sonora que desvela um encanto pelo clima parisiense, conotando um amor não somente pela Cidade Luz, mas pelas pessoas que a tornaram e ainda tornam, de alguma forma, única.

Mesmo optando por um incômodo didatismo ao expor as conclusões de seu protagonista no ato de escolher entre realidade e fantasia no clímax da narrativa, Allen nos faz sentir e compreender a necessidade e a complexidade desse inevitável desígnio pelo real, por mais que almejemos vivenciar devaneios que nos conduzam para além de nós mesmos, à vanguarda de nosso universo interior.

10/07/2011

A Garota da Capa Vermelha ou Como ‘Crepuscularizar’ Um Filme?



Nessa onda de remixar narrativas antigas, um dos maiores sucessos dos últimos anos - Crepúsculo - parece povoar o inconsciente de todo filme juvenil que invista em triângulos amorosos com seres sobrenaturais. Depois da fase vampiresca, parece que estamos adentrando na fase lobisomem, com A Garota da Capa Vermelha (Red Riding Hood, 2011, Catherine Hardwicke) recontando a história de Chapeuzinho Vermelho com um ar mais juvenil, dark e lascivo para o conto da menina que precisa aprender a lidar com situações inesperadas em sua cidade com a invasão de um lobo em sua cidade.

Valerie (Amanda Seyfried) enrosca-se em um romance com Peter, seu amigo de infância, ao mesmo tempo em que o vilarejo em que habita começa a sofrer os ataques de um lobo que atacou e matou sua irmã, além de ser prometida em casamento a Henry, o objeto de desejo de sua falecida irmã. Ao longo da narrativa, entra-se num jogo de gato e rato, em que todos são suspeitos de serem o criminoso da vez, com reviravoltas que surpreendem os espectadores mais impressionáveis.

Hardwicke, no entanto, investe em um triângulo amoroso sem graça e previsível a fim de despistar o espectador, que, ao saber de antemão o final da história, termina por tentar se divertir em descobrir a identidade do Lobo ou rir da presença exagerada de Gary Oldman como Padre Solomon, que chega à cidade para exterminar o animal assassino. Por mais que o design de produção e a fotografia de Hardwicke acertem o tom dark juvenil para trazer vida para essa nova versão, faltou um pouco mais de cuidado e esforço ao tentar reescrever a matriz.

(Re)escrever o Real - Os Irmãos Grimm



As narrativas, os mitos, os ritos sempre povoaram a mente do ser humano e, até hoje, continuam a se perpetuar dentre as mais diversas mídias, pois a construção de histórias – reais ou ficcionais – sempre nos ajudará a lidar com situações que surgem diante de nós. Dentre tantas histórias que conhecemos, os contos de fada tornaram-se universais pelas mãos e mentes de dois irmãos que resolveram publicar histórias que há muito tempo eram contadas e recontadas pelo povo: os Irmãos Grimm. O longa digirido por Terry Gilliam, Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm, 2005, Terry Gilliam), decide, no entanto, não escrever a história dos irmãos como, de fato, ela aconteceu, mas permitir aos dois escritores mergulharem no universo dos contos de fada que eles mesmos publicaram – como se fosse um “registro-x” da verdadeira História.

O longa dirigido por Terry Gilliam reúne diversas referências a contos como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e Rapunzel para contar a história de Will (Matt Damon) e Jacob (Heath Ledger) Grimm, que, com doses de ilusionismo e charlatanismo, sobrevivem de aplicar golpes em cidadãos que almejam ver os seres sobrenaturais que assombram os redutos de seus vilarejos destruídos ou escorraçados. Os medrosos e estranhos habitantes das cidades que os Grimm visitam desconhecem que eles mesmos forjam os ataques das bestas e bruxas a fim de angarias alguns trocados com o medo e a ignorância alheia. No entanto, quando são incumbidos de desmascarar o truque de outros charlatães que estão aterrorizando a cidade de Margraden ao seqüestrar adolescente, eles percebem que existem outras ameaças sobrenaturais verdadeiras com as quais eles precisarão lidar.

Enquanto que Will caracteriza-se mais pelo ceticismo e praticidade, em Jacob predomina a sensibilidade e o intelecto, tornando-se o responsável por redigir as desventuras dos irmãos em contos que são reunidos em um livro. A partir deste mote, Gilliam trabalha com diversas referências ao universo habitados pelos personagens dos irmãos Grimm, trabalhando com um elenco variado – além de Damon e Ledger, temos Peter Stormare, Monica Bellucci e Jonathan Pryce – e com uma direção de arte e uma fotografia desbotados que caracterizam uma sujeira da Alemanha da época, dominada pelos franceses. Da mesma forma, a trilha sonora tenta capturar o espírito tradicional e fantástico da aventura, compondo um cenário de fábula dark que atende aos públicos juvenis e adultos. Com um Matt Damon no piloto automático e um Heath Ledger que investe nas caretas para tentar trazer um Jacob mais humano e menos melancólico, o ex-Monty Python investe em efeitos especiais terríveis para sustentar a narrativa ao invés de apostar na sutileza, o que, talvez, teria melhorada o resultado da empreitada, que permanece no terreno dos clichês para proporcionar um entretenimento passageiro e esquecível.

Precisamos de histórias para lidar melhor com os problemas e alegrias que vivenciamos, admiramos o cinema por nos permitir viajar por essa estrada de auto-reconhecimento e entretenimento. No entanto, por vezes, não encontramos uma história ou formas de contá-la que nos atraiam ou nos incomodem o suficiente para mudar nossa concepção sobre os fatos.

03/07/2011

Redundância e Clichês + Plumas e Paetês = Burlesque


Hoje, postando mais uma vez no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Burlesque (idem, 2010, Steve Antin)



Bambi e os Ritos de Passagem

Hoje, postando de novo no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Bambi (idem, 1942, vários)


Laços de Ternura e de Aspereza


Hoje, postando no Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Laços de Ternura (1983, James L. Brooks)


07/05/2011

Uma Manhã Gloriosa e o prazer da irresponsabilidade


Falando de forma pessoal, quando acompanhei a jornada de Becky Fuller para conseguir fazer com que seu programa matinal de jornalismo e entretenimento fosse um sucesso na programação de uma grande emissora, não era possível deixar de me identificar com as situações dispostas na tela: a sensação de estar sempre correndo atrás do prejuízo, a descrença das pessoas no seu trabalho, além dos egos extremamente inflados de pessoas que parecem não pisar no chão, dentre outras situações. Ser produtor requer desvencilhar-se de uma individualidade para buscar o espectador mais genérico possível, deixar de se agradar para oferecer um produto que agrade milhões de pessoas, assim como fazer com que uma equipe, geralmente pequena, dê conta de uma grande quantidade de trabalho.

Saindo do plano pessoal e seguindo para a crítica propriamente dita, por mais que pretenda ser um retrato superficial dentre várias histórias de superação profissional diante de astros / chefes / coordenadores egocêntricos que o cinema já concebeu, Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, 2010, Roger Mitchell) ganha simpatia por um motivo: Rachel McAdams se torna extremamente cativante ao longo da narrativa, pois tem simpatia e talento para construir uma personagem que, por mais que caia na caricatura em alguns momentos, consegue se manter como a mais tridimensional que se apresenta no filme.

Com um roteiro que promete mais do que cumpre, Mitchell realiza um filme dinâmico que oferece uma energia forte para uma Diane Keaton diferente das senhoras simpáticas que nos acostumamos a ver, logo em sua primeira cena, para depois, relegá-la a um segundo plano. No entanto, ele oferece maior espaço para que a interpretação de um mal-humor monocórdico e despropositado de Harrison Ford ganhe contornos mais humanos perto do final do filme. Alguns instantes que parecem render algo diferente – como a briga dos dois apresentadores transmitida ao vivo -, mas parecem subaproveitados ou subestimados para seguir com outras situações que demandam maior espaço na narrativa. No entanto, por mais que seja essencial para este tipo de filme, seria muito pouco reduzir os esforços de Mitchell ao trabalho com o elenco, pois ele consegue criar um clima agradável através de sua fotografia singela, uma trilha sonora alegre e pop, além de um montagem quase invisível que privilegia o desenvolvimento da narrativa.

Por mais que não tenha a beleza e a humanidade de Um Lugar Chamado Notting Hill, Mitchell faz um filme previsível que versa sobre a possibilidade de ver a si mesmo, o trabalho e a própria arte um pouco menos a sério, com um pouco mais de prazer, desprendimento. Ser um pouco irresponsável requer justamente o contrário do que estamos acostumados: a individualidade, o querer agradar mais a si mesmo do que se deixar levar pelos pensamentos e cobranças alheios.