27/03/2011

Somewhere e a paternidade efêmera

De novo pro Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010, Sofia Coppola)

Viagem a Darjeeling e as fraternidades disfuncionais

Mais uma pro Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited, 2007, Wes Anderson)

Dogma e o automatismo da fé



Quando se fala em fé, sempre se pensa em diversos tipos de crenças que cercam a busca pela Verdade em que se queira basear a sua vida, variando de acordo com as entidades e ritos que se realizam para esse encontro com o divino. Em Dogma (Kevin Smith, 1999), o diretor constrói um trabalho que satiriza as imperfeições e os desastres que surgem dessa necessidade de conexão com algo maior do que nós mesmos e a aparente falta de sentido em se negar essa necessidade.

O longa conta a história de Bethany, uma católica – que trabalha em uma clínica de abortos - cuja vivência da fé tem sido levada como algo distante de si mesma, desejando um reencontro com uma crença viva. Em uma noite de sono, ela é convocada pelo anjo Metatron para uma jornada inóspita: impedir que dois anjos expulsos do Paraíso, Loki e Bartleby, entrem em um portal criado pela Igreja Católica que perdoará todos os pecados daqueles que por ele passarem. Se eles forem perdoados pelos suas falhas, eles terminariam provando que Deus errou, o que acabaria com a existência do mundo.

Junto com ela, parte uma galeria de personagens que desejam ajudar ou impedir seu cumprimento: Jay e Silent Bob, dois profetas malandros; Rufus, o 13º apóstolo, excluído da Bíblia por ser negro; Azrael, um demônio que deseja lançar uma guerra entre Céu e Inferno ao ajudar Loki e Bartleby; três jogadores de hóquei satanistas que realizam atos de vandalismo para ajudar as forças do Mal; e tantos outros que mostram a dinâmica da imperfeição traçada por Smith. Mesmo utilizando uma linguagem cinematográfica simples e efeitos especiais toscos, o diretor utiliza seu cinema intertextual para manipular diversos símbolos da cultura pop através de seus diálogos espertos e cheios de palavrões, objetivando questionar e satirizar a robotização de nossas próprias crenças.

Com essa multiplicidade de pontos de vista a respeito do modo como conduzimos nossa fé, Smith utiliza sua linguagem não para afirmar, mas para perguntar a seu espectador qual o sentido de sua fé, qual o sentido de perpetuar gestos vazios ao invés de se aprofundar na essência daquilo ou Daquele que, aparentemente, nos faz tão bem? Qual a linha que separa a compreensão da fé como um prazer ou um fardo?

16/03/2011

Corpos Ardentes e a releitura do noir


Jazz. Homens solitários. Femme Fatales. O gênero – ou estilo - noir, emerso da literatura do início do século XX, teve seu auge no cinema norte-americano dos anos 40, tratando de seres deslocados habitantes de uma cidade e de uma sociedade decadentes. Em Corpos Ardentes (Body Heat, 1981), Lawrence Kasdan constrói uma releitura dramática deste gênero – tratado como neo-noir - ao compor uma trama de mistério e crime que alimenta a sensualidade pulsante de seus personagens.

Iniciando o longo com sucessivas fusões entre os meandros de um corpo feminino e imagens de vapores avermelhados com o acompanhamento do leve e sensual sax de John Barry, o espectador conhece a trajetória de Ned Racine (William Hurt), advogado do estado da Flórida que não consegue se encaixar em nenhum relacionamento de maneira profunda, até encontrar Matty Walker, mulher sensualíssima que logo chama a atenção do solitário homem, mostrado através de cenas em que os diálogos cortantes e sensuais tonificam a narrativa. Começando de forma despropositada, o relacionamento de ambos caminha oculto até que decidem aplicar um golpe contra o esposo da adúltera Walker, que se tornaria herdeira de todos os bens conquistados pelo empresário que lhe sustentou durante anos.

A direção de Kasdan acerta o tom dos enquadramentos por vezes distorcidos, dos jogos de luz e sombra e da mise-em-scene desestrurada para oferecer ao espectador um sopro de ar fresco a um gênero que caminhava decadente alguns anos antes da produção do filme. Quanto ao elenco, William Hurt compõe um sujeito solitário, que não encontra seu papel na historicidade em que reside e se perde no desejo por uma mulher que, a princípio, lhe despreza. Da mesma forma, Kathleen Turner exibe uma mulher aparentemente frágil que parece ser vitimizada pelas conseqüências de suas escolhas, mas que, em certo ponto, mostra-se causadora de todas as circunstâncias que lhe cercam.

No embate entre masculino e feminino, a misoginia e o cinismo usuais dos protagonistas do noir dos anos 40 oferecem lugar para a efervescência transgressora que toma conta da cidade – na excelente metáfora para a onda de calor que todos os personagens e que, em certo momento, justificam seus atos impensados -, exibindo o relacionamento tortuoso entre um homem que não consegue ter postura para domar suas paixões e uma mulher que reforça e, paradoxalmente, ironiza seu estereótipo de pouco inteligente a fim de realizar o crime perfeito. No jogo em que todos brigam por uma vida “no limite e no controle” do id, o que vale mais: a força da aparência ou a aparência de força? No caso do próprio gênero noir, uma força que advém da própria aparência, da própria imagem, dos contornos que exibe a fim de desestabilizar aquele que assiste.

15/03/2011

Gangues de Nova York e o coletivo individual

Hoje, postando no blog Cine Lupinha.

Filme de Hoje: Gangues de Nova York (2003, Martin Scorsese)


06/03/2011

Ensaio Sobre a Cegueira e Sobre o Olhar

Hoje, estou postando no Cine Lupinha, com essa equipe maravilhosa!

Filme de Hoje: Ensaio Sobre a Cegueira (2008), de Fernando Meirelles


Bravura Indômita ou Violência Desmedida?



Dentro de sua extensa filmografia, os irmãos Coen trabalharam com gêneros diversos – comédias, dramas, suspenses -, mas, com dois deles em particular, eles sempre flertaram de maneira curiosa: o noir e o western, que mesclaram a fim de compor uma metáfora com a decadência tanto do gênero-símbolo dos EUA como da própria nação.

Em Bravura Indômita (True Grit, 2010), eles optam por realizar um trabalho aparentemente oposto, utilizando um expoente do ápice do western na filmografia norte-americana, estrelado pelo icônico John Wayne como Rooster Cogburn. O federal contratado pela pequena Mattie Ross para encontrar o assassino de seu pai, Frank Ross, no interior dos EUA dosa coragem e egoísmo para cumprir com louvor o intento da menina. Conduzindo a jovem pelo submundo dos caçadores de recompensa e dos destemidos vilões de uma sociedade que aprendeu a sobreviver pelo mal que impõe sobre o outro, ambos embarcam em uma jornada onde os predadores estão mais próximos do que se imagina: dentro de nós mesmos.

A pequena Mattie, interpretada com louvor por Hailee Steinfeld, mescla inocência e determinação na busca que engendra para vingar não somente seu pai, mas a sua própria vitimização, tornando Chaney quase um mito dentro de seu cotidiano violento. No entanto, quando conhecemos o assassino, ele surge comum, banal, quase patético ao lavar seu cavalo no rio, bem diferente de toda a impiedade demonstrada pela criança. Entretanto, a percepção mais perigosa das conseqüências desta violência reside em uma cena particular: quando, no caminho de volta, o cavalo de Mattie, Little Blackie, não agüenta o percurso e precisa ser sacrificado, a menina desespera-se ao pedir que Cogburn não mate o animal. Esta consiste em uma virada peculiar para a personagem, que, até então, se mantinha impassível diante de todos os assassinatos cometidos durante sua jornada, fazendo o espectador questionar a juventude que surge em uma sociedade que vê o mal se relativizando dessa forma.

Discutindo o poder dessa violência de nos anestesiar diante do sofrimento, os Coen compõem um painel vivo de uma época perdida no tempo, mas não no nosso inconsciente, pois esse fotograma dos velhos westerns ainda nos comunica que, mesmo crescendo e evoluindo, continuamos os mesmos.

03/03/2011

Elizabeth - O Público e o Privado

Hoje, estou postando no blog Cine Lupinha, para o qual fui convidado recentemente por um de seus integrantes - Rafael W. - a fazer parte da Equipe. Desde já estou agradecendo e me sentindo muito lisonjeado pelo convite.

Filme de hoje: Elizabeth (1998), de Shekar Kapur

Obrigado pela oportunidade

02/03/2011

127 Horas e a autoria da própria história


Nos longas de Danny Boyle, o acaso torna-se ferramenta através da qual seus protagonistas precisam superar suas expectativas a respeito de si mesmos a fim de conseguir simplesmente sobreviver, vide as crianças e jovens indianos de Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008) e o famigerado Rent Boy de Trainspotting (Trainspotting, 1996). Em 127 Horas (127 Hours, 2010), Boyle conta a história real de Aaron Rolston, alpinista que, numa de suas tresloucadas viagens, termina preso em um cânion isolado de tudo e de todos.

Com um dos braços preso numa rocha, ele precisa encontrar uma forma de sair e continuar sua vida, mas não da mesma forma que entrou: aos poucos, Rolston começa a perceber o quanto estava distanciado das outras pessoas, o quanto suas viagens representavam uma fuga de um compromisso com elas e, talvez, consigo mesmo. E, em uma metáfora dilacerante, ele só consegue sair do seu infortúnio deixando parte de si mesmo naquele lugar, como se precisasse mesmo abrir mão de si para que os outros encontrassem seu espaço na vida dele.

Com um roteiro que investe na presença forte do protagonista, Boyle deixa Franco à vontade para construir uma persona elétrica, irresponsável, mas, acima de tudo, cativante, um ser humano real, que precisa aprender o valor da responsabilidade. Além disso, ele se utiliza de uma edição dinâmica e fragmentada que joga o espectador para dentro da mente veloz de Rolston, permeada por flashbacks e sonhos que contribuem para manter o mundo externo dentro do cânion. No entanto, essa mesma edição entrecortada termina diminuindo o impacto da situação de Rolston, pois, de certa forma, ele não fica isolado, mas as outras pessoas permanecem como imagens junto dele.

Existem vantagens e desvantagens na escolha que Boyle fez na direção do longa, da mesma forma que Rolston obteve quando precisou escolher a vida, mesmo que com um membro a menos. Estamos sempre realizando opções que podem nos trazer ganhos e/ou malefícios, nem sempre na mesma medida, cabendo a nós lidar com ambos de uma maneira que nos permita, de fato, sobreviver.

Como Treinar Seu Dragão e ser inteiro mesmo sendo parte


Quando se pensa no subgênero “filmes de amizade entre inimigos”, nos vêem diversos longas que propunham unir inimigos em potencial que, contrariamente, aprendem a aceitar suas diferenças e se amar. Essa temática vem desde o teatro, com Shakespeare e seu Romeu e Julieta, assim como tem chegado em Ratatouille (Ratatouille, 2007), longa gastronômico da Pixar, e centenas de outros trabalhos que se utilizam do universo figurativo e narrativo típico deste gênero para abarcar outros temas.

Trazendo uma estrutura convencional em sua construção, Como Treinar Seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2010) traz como protagonista Soluço, um rapaz franzino que mora num aldeia viking povoado por matadores de dragões por natureza. Contudo, mesmo sabendo que não consegue matar dragões, ele deseja se encaixar não somente no padrão que a sua sociedade aceita, mas que seu pai acredita ser o melhor para a “honra da família”. Mas, num dia, soluço conhece um dos dragões cuja lenda o torna o mais poderoso e mais temido de toda a aldeia, algo que ele facilmente contesta ao perceber a fragilidade do mesmo ao vê-lo tentar voar e não conseguir, por conta de uma deficiência na cauda.

Construído com uma técnica que parece atrasada em relação aos trabalhos feitos pela Pixar, o filme, no entanto, conquista pela simplicidade e generosidade ao deleitar o espectador com uma trilha sonora bela e tocante, assim como um discurso que trata da deficiência física como uma simples limitação, mas não como a maior barreira para nosso sucesso. Para Soluço, a maior barreira está construída dentro de nós mesmos, que mesmo inteiros de corpo, parecemos fragmentados, divididos, por vezes destruídos, pelas situações e pessoas que nos cercam e frustram.

Contudo, como atesta a mensagem final do longa, todos podemos ser parte dentro de um todo maior, mas precisamos estar inteiros dentro de nossa identidade e da compreensão de nossa força transformadora, domando - ou treinando - aquilo que parece querer nos destruir, seja por dentro ou por fora.

A decadência da identidade - O Mágico


O ser humano, desde seu nascimento, carrega dentro de si o potencial para construir qualquer identidade, podendo ser cientista, artista, estudioso etc, assumindo caracteres que lhe aproximam de determinadas categorias e outras que lhe particularizam dentro das mesmas. Mas, em certos momentos, desejamos manter certas identidades que , por mais que nos encantem, não conseguem ou conseguirão comungar com as experiências das outras pessoas na sociedade.

Essa é a linha mestra do longa de animação O Mágico (L'Illusionniste, 2010), dirigido por Sylvain Chomet - de As Bicicletas de Belleville (Les Triplets Du Belleville, 2003) - a partir de um roteiro de Jacques Tati, que conta a história de um mágico que entra em decadência por não conseguir mais se encaixar no cotidiano de uma grande cidade. Como o público diminui cada vez mais devido à preferência por atrações mais jovens e populares, ele tem menos oportunidades de trabalho e precisa viajar para se manter. Numa destas viagens, rumo à Escócia, ele conhece uma garota, a quem presenteia com um par de sapatos e que decide seguir com ele.

Interessante como Chomet trabalha com a persona de Tati para compor o protagonista, mas, ao invés de utilizar da inadequação como um meio de extrair risadas, ele a utiliza de forma melancólica, extraindo sua poesia de pequenos momentos em que vemos a energia criativa surgir num cotidiano cercado de concreto e barulho. Com traços leves e contornos humanos, além de um sépia constante que ressalta a sensação de deslocamento temporal. Contudo, em seu final pessimista, mas ao mesmo tempo poético, Chomet chama atenção para nossa necessidade de sempre escolher o caminho da realidade, que, mesmo não sendo o caminho mais agradável, ao menos é aquele que nos encaminha para uma realização mais sólida da nossa identidade. Talvez a resposta não esteja na total negação do sonho, naquilo que desejamos para nós mesmos, mas nas possibilidades que, paradoxalmente, uma limitação pode nos fazer enxergar.